05/02/2019 15:35:00
Bruno Mafra | Bruno Mafra
Maquiavel e Saramago ajudam a compreender o cenário político-reigioso brasileiro.

  “Os fins justificam os meios”. Essa máxima foi criada a partir da leitura de Maquiavel em sua obra mais conhecida, “O Príncipe”. Nele, o pensador apontou o caminho para um governante manter-se no poder numa Europa fragmentada e violenta. De acordo com o ex-presidente e sociólogo Fernando Henrique Cardoso: 

“É certo que Maquiavel não prega a esmo que os fins justificam os meios; assim como tampouco dá seus conselhos aos HOMENS COMUNS. Só aos PRÍNCIPES, em momentos decisivos, caberia ‘FAZER O MAL’ quando ele fosse necessário para salvar a república ou a si mesmo”.  

Em outra parte de sua obra Maquiavel diz que:

“Não se pode dizer que haja virtude em exterminar concidadãos, trair os amigos, não ter fé nem piedade nem religião; pois é possível conquistar o poder por esses meios, mas não a glória”.  

O filósofo enfatiza o quanto são decisivos os meios para se obter poder, ainda que isso lhe custe a glória. E A GLÓRIA É TUDO.

Ainda...

“O príncipe pode obter a simpatia do povo por vários meios; no entanto, como estes variam conforme as circunstâncias, não se pode indicar uma regra precisa, razão pela qual passaremos adiante. Apenas para concluir, direi que um príncipe precisa ter o povo a seu lado, do contrário não terá apoio nas adversidades”. 

Mas, afinal de contas o que tudo isso tem a ver com entender a relação atual entre religião e política no Brasil? Todos nós estamos vendo cada vez mais e em maior número a “presença” religiosa na esfera pública e mais precisamente na política institucional brasileira.

Quando observamos o religioso na esfera pública percebemos que ele sempre afirma que em um espaço democrático vale tudo, até mesmo o direito de um fiel expressar suas convicções religiosas. Fará o uso da Constituição de 1988, que diz no artigo 5º, VI:

“É inviolável a liberdade de consciência e de crença, assegurando o livre exercício dos cultos religiosos e garantindo, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias”.

Não vamos discutir aqui o aspecto jurídico. Mas, é possível afirmar com total segurança que o que acontece no cenário político contemporâneo é diferente do que em tese a lei estabelece. Estamos vendo a todo hora a religião ser usada como instrumentalização da política como meio para determinados segmentos religiosos desejem determinar regras de moral social. Isso é fundamentalismo. O poder em um Estado Democrático de Direito emana do povo, não de Deus. Esse é um dos avanços de uma república (res publica – coisa do povo). O povo é tudo.

Seria interessante se pensássemos hipoteticamente que  um dia os brasileiros se declarassem pertencentes a outra fé que não a cristã. Se os que hoje se declaram cristãos, aceitariam o argumento do qual se valem para impor sua visão de mundo ou fariam pregações sobre o direito e respeito à diversidade. O que todos desejam na verdade é poder. E historicamente no Brasil a religião da maioria é, via de regra o caminho mais garantido de ascensão. Candidato a cargo eletivo que se declara ateu terá sérios problemas com os eleitores muito religiosos.

Os discursos em favor da “família”, da “moral”, de “Deus”, tem na história mais recente do Brasil e não contam com mais que duas décadas motivos para serem no mínimo suspeitos. Durante a ditadura aconteceu a “Marcha da Família com Deus e pela Liberdade.”Qual era a real reivindicação? Não era a intervenção militar que queriam? O que aconteceu depois? Não foi a censura, tortura e repressão à liberdade? Dá mesma forma aconteceu no impeachment da atrapalhada Dilma Roussef. Alguns dados interessantes. Os deputados usaram a palavra “Deus” 59 vezes, 65 vezes a palavra “corrupção” e “família” surgiu 136. E claro não poderíamos esquecer da fala do ex-deputado federal Eduardo Cunha que abriu a votação dizendo: “Que Deus tenha misericórdia desta Nação”. 

Não poderíamos esquecer também da Janaína Paschoal a advogada que ficou famosa no Brasil que durante o Impeachment da Dilma disse:
“Novamente “Deus” estava presente: “Foi Deus que fez com que várias pessoas percebessem o que estava acontecendo com o nosso país e criassem coragem para se levantarem e fazerem alguma coisa a respeito”.


Saramago ao analisar o atentado terrorista em 2011 nos EUA disse:

“Não é Deus, mas o ‘fator Deus’ o que se exibe nas notas de dólar (EM DEUS NÓS FINAMOS) e se mostra nos cartazes que pedem para os Estados Unidos a bênção divina”.

O Brasil hoje está intoxicado do pensamento aberto as portas às intolerâncias mais sórdidas, esse que não respeita senão aquilo em que manda crer, esse que depois de presumir ter feito da besta um homem acabou por fazer do homem uma besta.”

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