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Livro lança polêmica sobre morte de Lampião e diz que ele morou até 1982 em Pão de Açúcar
Afirmação é do escritor Antônio Pinto, autor do livro “Lampião, a sua verdadeira morte: Angicos não houve o fim”, que reuniu provas e depoimentos para contestar a versão oficial da suposta morte ocorrida em 1938
Por Diego Barros
Capa do livro mostra foto de Lampião jovem, em atividade no cangaço, e foto de Lampião idoso, quando morou em Pão de Açúcar com o nome de João Novato - Foto: Cortesia de Antônio Pinto

Já pensou se Lampião, o rei do cangaço, pudesse fazer como Brás Cubas, personagem fictício de Machado de Assis, que depois de morto narrou a própria vida e inclusive a própria “morte”? Ou se, em vez disso, não tivesse realmente morrido na data que entrou para a história oficial como o seu fim, tendo vivido por mais 44 anos sob um pseudônimo e, assim, acompanhado, lido e assistido boa parte do que se produziu no cinema, na televisão e na literatura sobre sua vida e sua “falsa morte”?

O que teria dito Lampião sobre documentários e filmes como “O cangaceiro (1953)”, de Lima Barreto, “Lampião, o rei do cangaço (1963)”, de Carlos Coimbra, “Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964)”, de Glauber Rocha, “Memória do Cangaço (1964)”, de Paulo Gil Soares, “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969)”, também de Glauber Rocha, ou “O último dia de Lampião (1975)”, de Maurice Capovilla?

Para o escritor e artista plástico Antônio Pinto, natural de Pão de Açúcar, município do Sertão de Alagoas situado à margem do Rio São Francisco, foi exatamente isso o que ocorreu: o famoso confronto de 1938 entre a volante de Alagoas – a Polícia Militar da época – e os cangaceiros, entre os quais estavam Lampião e sua esposa Maria Bonita, em Angicos, no município sergipano de Poço Redondo, não passou de uma farsa planejada em detalhes.

Todos os elementos, provas e depoimentos que reuniu para apresentar essa teoria, que vai contra tudo o que se sabe oficialmente até agora sobre o fim de Lampião e de parte de seu bando, está registrado em dois livros, um deles já publicado com o título “Lampião, a sua verdadeira morte: Angicos não houve o fim”, lançado em 2020 pela editora Buqui, do Rio Grande do Sul. O segundo título, que trará mais provas e depoimentos, será publicado por uma editora de Alagoas até o final de 2021.

A publicação do primeiro título por uma editora do Sul do país, segundo revelou Antônio Pinto em entrevista ao Correio Notícia, ocorreu porque ele temia algum tipo de censura, represália ou desprezo por sua pesquisa, a qual cria polêmica e lança um novo olhar sobre um assunto – a morte de Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros – em tese já “pacificado” entre historiadores, escritores de ficção, pesquisadores, cineastas, especialistas no tema cangaço e autoridades públicas.

De acordo com Antônio Pinto, houve uma “farsa combinada” entre policiais, “coronéis de mando”, cangaceiros e uma rede de apoiadores de Lampião para dar fim ao cangaço a partir daquele momento, em 1938, garantir a vida dos próprios cangaceiros e o recebimento das recompensas que eram oferecidas, na época, a quem os capturasse vivos ou mortos.

Outros detalhes desse “acordo” para a falsa morte, dos 44 anos de vida que Lampião teve após o famoso ano de 1938 ao lado de sua companheira, Maria Bonita, e como, por qual razão e onde ele realmente morreu e foi sepultado estão descritos por Antônio Pinto a seguir.

Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, em imagem da época do cangaço (à direita) e já idoso (à esquerda), quando, segundo Antônio Pinto, passou a morar em Pão de Açúcar com o pseudônimo de João Novato (Foto: Cortesia de Antônio Pinto)

O acordo

Vinte e oito de julho de 1938: segundo a versão oficial da história, já contada centenas de vezes em livros, filmes, reportagens de revistas, jornais, rádio e televisão, foi nesse dia que Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros do bando foram mortos em uma localidade conhecida como Angicos, pertencente ao município de Poço Redondo, em Sergipe, perto do Rio São Francisco, em uma ação planejada e executada pela Polícia Militar de Alagoas, que chegou ao local saindo do município alagoano de Piranhas.

Os 11 tiveram as cabeças separadas dos corpos, as quais foram expostas em vários lugares como troféus e provas de que estavam todos mortos e de que o cangaço, ou pelo menos seus integrantes mais conhecidos, havia chegado ao fim. Outros 23 cangaceiros que estavam naquele lugar conseguiram fugir.

Conforme Antônio Pinto, porém, não foi bem isso o que ocorreu. Segundo revelou ao Correio Notícia e em seu livro “Lampião, a sua verdadeira morte: Angicos não houve o fim”, toda essa situação foi forjada. Ele disse que o confronto nunca existiu e que houve um acordo entre os envolvidos.

“Naquela época Lampião já estava fora de combate e vivia tranquilo. Ele era sócio de fazendeiros em Pão de Açúcar (AL), a nata da cidade na época se dava muito bem com ele. Mas ocorre que o presidente da República, Getúlio Vargas, ao saber alguns anos antes da atuação de cangaceiros como se fossem um estado paralelo, ordenou a captura e o fim deles. Porém, houve esse acordo entre a polícia local, os coronéis de mando e fazendeiros da região que apoiavam Lampião, como Joaquim Rezende, que era de Pão de Açúcar, e os próprios cangaceiros”, relatou Antônio Pinto.

“Lampião era sócio de Joaquim Rezende nas fazendas Lagoa da Vaca e Saco Grande. Foi Joaquim, inclusive, que intermediou o acordo com o tenente Aniceto, para que não fechassem o cerco e os cangaceiros fugissem. Em colaboração, eles deixaram peças de roupas, armas, lenços e outros artefatos, que foram recolhidos e fotografados junto com as cabeças expostas em uma escadaria de Piranhas. Pelo acordo, todos deveriam abandonar de vez o cangaço, usar pseudônimos (nomes falsos), ir embora e confirmar para sempre que Lampião tinha sido morto. Os policiais envolvidos, por sua vez, receberam as recompensas oferecidas pela captura de Lampião e foram promovidos de cargos, subiram de patentes”, explicou o escritor ao Correio Notícia.

Segundo ele, de alguma forma Lampião se machucou nessa “despedida” e precisou de atendimento médico na cidade de Nossa Senhora da Glória, em Sergipe. Mas depois seguiu viagem para viver os próximos 23 anos entre os estados de Minas Gerais e Goiás. Passado esse período, já na década de 1960, Lampião e Maria Bonita voltaram para Alagoas, onde moraram até a “verdadeira morte”.

Ainda de acordo com o escritor, a ligação e os contatos de Lampião com moradores de Pão de Açúcar (AL) começaram na juventude, antes de ingressar para o cangaço, quando ele visitava a cidade em companhia do pai para compra e venda de mercadorias. Isso teria ocorrido na época em que eles moravam entre Água Branca e Mata Grande, no Alto Sertão de Alagoas.

Anos mais tarde, a filha de Lampião e Maria Bonita, Expedita Ferreira Nunes, teria nascido nas proximidades de Pão de Açúcar, conforme lembrou Antônio Pinto, e por lá viveu alguns anos com a família à qual foi entregue após ter nascido.

A morte forjada

Conforme a tese defendida por Antônio Pinto em seu livro, não houve o confronto e nem a morte de 11 dos 34 cangaceiros que estariam em Angicos naquele 28 de julho de 1938. A foto das cabeças expostas em uma escadaria em Piranhas e que se tonou um ícone daquele episódio, inclusive, teria sido feita por um fotógrafo de Pão de Açúcar, conhecido como João Lisboa, situação que também ajuda a corroborar sua tese de “acordo prévio”, o qual teria o envolvimento direto dos protetores que Lampião possuía em Pão de Açúcar.

“João Lisboa recebeu antes dessa data as peças dos cangaceiros, como chapéus, lenços, entre outras, para pensar como iria montar o cenário. E reparem que não tem nenhuma marca de sangue nas cabeças dessa foto. Outra coisa: pela versão oficial ele teria ido a Piranhas a convite das volantes. Mas como elas sabiam que teriam sucesso na empreitada e, dessa forma, iriam necessitar da presença de um fotógrafo para registrar alguma coisa?”, questiona o escritor.

A origem das cabeças, porém, ele não soube explicar exatamente qual era durante a entrevista. Mas revelou: “elas tinham dimensões muito pequenas, os dentes eram pequenos. Eram cabeças de tamanho infantil. Isso está no laudo do legista que as recebeu para examinar, alguns dias depois da decapitação e já em estado de putrefação. Tanto é que ele não deu atestado de obtido. Deu só um laudo.”

Foto registrada em Piranhas (AL) mostra as cabeças dos supostos cangaceiros mortos na emboscada em Angicos (SE), ocorrida em 28 de julho de 1938 (Foto: João Lisboa) 

A autópsia foi feita pelo legista José Lages Filho, no IML de Maceió, para onde as cabeças foram levadas após a decapitação e depois de quatro a cinco dias de exposição no interior. “Como as mortes ocorreram em Sergipe, elas deveriam ter sido levadas para análise no IML de Aracaju, e não em Maceió. Mas por que foram para Maceió?”, questiona Antônio Pinto.

Em 13 de novembro de 1996, o jornal Folha de São Paulo publicou o seguinte sobre o episódio da autópsia: “O autor da única autópsia feita na cabeça, José Lages Filho, do IML de Maceió, registrou que o estado em que a recebeu – em decomposição, quatro dias após ser decepada, e com um tiro que atravessou o crânio – impediu que ele fizesse "um estudo acurado". Por isso, ele só sugeriu no laudo que ela pertencesse a Lampião. Lages Filho escreveu: "Em resumo, embora presentes alguns estigmas físicos na cabeça de Lampião (...), faltam deformações e outros sinais aos quais tanta importância emprestava caracterização do criminoso nato". A Fundação Joaquim Nabuco tem cópia do laudo.”

Caricatura mostra, segundo o escritor Antônio Pinto, como seria a cabeça de Lampião levada ao legista no IML de Maceió, em 1938: pelas dimensões anotadas pelo profissional na época, a peça teria o tamanho de uma cabeça de criança ou adolescente

Antônio Pinto também aponta para o fato de que as peças e acessórios supostamente recolhidos dos cangaceiros mortos no confronto pelas volantes alagoanas não guardam resquícios de sangue. As peças estão expostas no Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, em Maceió.

João Lisboa foi, segundo Antônio Pinto, o fotógrafo que registrou, em Piranhas (AL), a primeira imagem das cabeças dos supostos cangaceiros mortos em Angico (SE) (Foto: Cortesia de Antônio Pinto)

Retorno a Pão de Açúcar como João Novato e Maria Rita

Vinte e três anos após ser dado como morto, Lampião e Maria Bonita teriam voltado ao morar em Pão de Açúcar, segundo a tese defendida em livro por Antônio Pinto. O ano era 1961 e Lampião já tinha 64 anos de idade (considerando o ano de nascimento dele como 1897, conforme consta no livro; alguns registros apontam que ele nasceu em 1898 e outros, em 1900).

“Ele tinha muitas amizades em Pão de Açúcar, e o povo era pacato. Durante o período de atividade no cangaço, ele nunca invadiu Pão de Açúcar, justamente pelas amizades que tinha lá. Em 1961, ele já estava tido como morto há muito tempo, então ninguém iria perceber o seu retorno”, comentou o escritor, ao justificar os motivos que fizeram o casal de ex-cangaceiros voltar a viver em Pão de Açúcar.

Foram dois endereços: o primeiro deles era uma casa na Praça São Pedro, e o segundo era a casa de número 449 na Rua Professora Rosália Sampaio Bezerra. Os nomes, como era de se esperar, eram pseudônimos: Lampião se chamava João Novato, enquanto Maria Bonita era Maria Rita.

Imagem mostra local da primeira casa onde morou o casal João Novato e Maria Rita, em Pão de Açúcar (Foto: Cortesia de Antônio Pinto)

Forjar a própria morte e viver longe do cangaço com um novo nome era uma prática já muito utilizada por aqueles que decidiam deixar a vida de clandestinidade e confrontos. Foi o que teria feito, inclusive, um irmão do próprio Lampião, conforme relatado pelo jornal Folha de São Paulo em 13 de novembro de 1996:

“Mas o fato mais estranho, que assustou até familiares de Lampião, foi o irmão do cangaceiro, Ezequiel, ter reaparecido vivo em 1984 na cidade de Juazeiro (CE). A história registrava que ele, que também era cangaceiro, havia sido morto em 1926, numa emboscada. Ezequiel usava o nome de Francisco e só revelou sua identidade ao buscar em Serra Talhada (PE) documentos para aposentar-se. Personagens remanescentes do cangaço foram taxativos ao afirmar que só um irmão verdadeiro de Lampião saberia responder questões que ele respondeu. Ezequiel contou à época (ele morreu em 1987) que em 1926 desistiu de continuar no banditismo. Negociou com o Rei do Cangaço e, quando houve uma morte no bando, o irmão, Lampião, fez com que as roupas fossem trocadas entre o cangaceiro morto e Ezequiel, que ganhou dinheiro suficiente para fugir e mudar de vida. Segundo o relato, foi feito um enterro simulado. A prática de simulação de enterros foi uma constante no bando de Lampião”, diz a reportagem, cujo acesso está disponível na internet (https://bit.ly/2WehTCg).

Outros ex-cangaceiros também adotaram nomes novos (os pseudônimos) e passaram a viver em vários estados do Nordeste, do Sudeste e do Centro-Oeste. Alguns deles, já idosos, deram entrevistas a emissoras de televisão.

Em Pão de Açúcar (AL), João Novato (Lampião) e Maria Rita (Maria Bonita), por sua vez, não conseguiram ficar em total anonimato. Na época houve quem desconfiasse e tivesse deles próprios a confirmação de suas verdadeiras identidades.

Casa original de número 449, na Rua Professora Rosália Sampaio Bezerra, em Pão de Açúcar, foi demolida e, no local, foi erguida essa outra; esse teria sido o segundo e último endereço onde viveu o casal de ex-cangaceiros (Foto: TV Maria Bonita/Youtube)

Um depoimento com essas afirmações foi colhido pelo escritor Antônio Pinto para seu livro. Quem fez as alegações foi uma senhora de 80 anos de idade chamada Dagmar, que foi vizinha do suposto casal de ex-cangaceiros. Ela também deu entrevista em vídeo para o canal no Youtube chamado “TV Maria Bonita”. O material foi publicado pelo veículo no dia 9 de março de 2020.

Na entrevista, dona Dagmar disse que conversava muito com Maria Rita, mas que João Novato era muito fechado, não conversava com ninguém, não olhava diretamente para as pessoas e tinha “um olho cego”. Ela também descreveu que ele fumava em um cachimbo e como ele se vestia.

“Eles quando vieram morar ali vizinho a mim botaram uma bodega. Ela (Maria Rita) se comunicava bem e tudo, mas ele (João Novato) era muito fechado, era calado, não falava com ninguém, não gostava de olhar pra o povo. O povo perguntava ‘ô Rita, por que seu marido não olha pra o povo?’, e ela dizia ‘não sei, ele é assim, não gosta de ninguém’”, relembrou dona Dagmar no vídeo.

“Ela (Maria Rita) me contou que ele era assim porque mataram a família dele. Eles foram pra roça e lá mataram o pai, a mãe e dois irmãos dele. Aí ele se revoltou. Eles eram de Pernambuco, mas não diziam o lugar, não. Aí depois disso ele se revoltou e saiu matando, matou muita gente”, detalhou a ex-vizinha do casal.

“Um dia eu disse: ô Rita, por que seu João é tão calado, tão quieto e é cego? Ela disse: ‘um tiro’. Aí ela disse: ‘olhe, Dagmar, João é Lampião!’. Eu digo ‘oxente, Lampião, que matou muita gente?!’. Eu rindo, sabe? Aí ela disse: ‘esse mesmo’. Aí eu disse: ‘e eu não vi dizer que mataram ele?’. E ela: ‘mataram não, nós fugimo. Olhe ele aí’”, narrou dona Dagmar ao canal do Youtube.

“Ele era mesmo Lampião. Porque era um homem muito fechado, não queria conversa com ninguém. Aí um dia eu disse a ele: ‘ô seu João, o senhor é o Lampião’. Aí ele olhou pra mim e disse: ‘quem lhe disse?’ Eu disse: ‘eu sei’. Não quis dizer que foi Rita, né? Ele disse: ‘Eu sou, eu não nego. Eu sou Lampião e matei muita gente’. Aí eu disse: ‘e por que o senhor matou o povo?’ Aí ele disse: ‘porque mataram meu pai, minha mãe e minha família’”, recordou dona Dagmar durante a entrevista.

Quando João Novato e Maria Rita morreram, segundo Dagmar, nenhum familiar apareceu para os enterros deles. Ela disse que eram pessoas muito reclusas e que não recebiam visitas em casa – pelo menos no primeiro endereço em que moraram na cidade, quando foram vizinhos dela. A única visita era de uma suposta irmã de Maria Rita, chamada Inocência, com um filho (sobrinho de Maria Rita). A entrevista completa para o canal TV Maria Bonita está disponível abaixo.

Lampião fantasiado de Lampião em bloco de carnaval

O próprio autor do livro afirmou que conheceu João Novato. Hoje com 59 anos, ele disse que, na adolescência, foi morar por um tempo com a avó, que era vizinha do suposto casal de ex-cangaceiros no segundo endereço que eles ocuparam em Pão de Açúcar. Naquela época, porém, ele não desconfiava de nada, mas alguns colegas dele, sim.

“Em meados da década de 1960, Lampião, já idoso, participou de um bloco de carnaval em Pão de Açúcar fantasiado de cangaceiro. Essa é uma das maiores provas de que ele não morreu em Angicos em 1938”, argumentou Antônio Pinto, ao mostrar uma foto obtida por ele que registra o grupo fantasiado de cangaceiros, com João Novato entre eles.

Foi como se, naquela ocasião, Lampião se despisse do pseudônimo, pegasse novamente em armas e na vestimenta usada em combates e viagens para reviver quem ele foi por muito tempo, o Rei do Cangaço, porém, com a missão apenas de entretenimento e diversão, fantasiado dele próprio e ao mesmo tempo escondido do conhecimento popular na aparência de um senhor na casa dos 60 e poucos anos.

Depois dessa “exposição”, conforme Antônio Pinto, João Novato não mais se aventurou a aparecer em público desse jeito e manteve a discrição e o hábito de poucas palavras, segundo relatou em entrevista a vizinha Dagmar.

Em sua pesquisa e coleta de depoimentos e provas para escrever o livro, ele conta que manteve contato por telefone com uma sobrinha-neta de Lampião, chamada Severina, que é neta do irmão dele chamado Antônio Ferreira. Segundo ele, ela confirmou que o tio-avô morou, sim, em Pão de Açúcar após a suposta morte ocorrida em 1938.

Foto obtida pelo escritor Antônio Pinto mostra o que seria um bloco de carnaval, em 1965. Nele, Lampião (marcado pela seta) já vivia em Pão de Açúcar como "João Novato" e fantaisou-se de cangaceiro, ou seja, dele próprio, para curtir a folia (Foto: Cortesia de Antônio Pinto)

A “verdadeira morte” de Lampião e Maria Bonita

De acordo com Antônio Pinto, o casal João Novato e Maria Rita continuou vivendo em Pão de Açúcar. Além da bodega, eles também obtinham alguma renda da venda de tabaco e fumo e, de forma discreta, da venda de moedas de ouro, mas levavam uma vida muito simples.

Em 1982, João Novato teve problemas renais. A situação se agravou e ele foi transferido para o Hospital Geral do Estado, o HGE, em Maceió, onde morreu. O suposto ex-chefe do cangaço tinha, na ocasião, 85 anos de idade. O corpo dele foi recolhido na capital por moradores da cidade ribeirinha em uma pickup e enterrado no Cemitério São Francisco de Assis, em Pão de Açúcar.

Dois anos mais tarde, em 1984, Maria Rita, a companheira dele, também morreu em decorrência de problemas de saúde, depois de ter sido transferida para a Santa Casa de Misericórdia de Maceió. O corpo dela foi enterrado no mesmo cemitério em Pão de Açúcar.

Túmulo restaurado (no chão com azulejos escuros), em cemitério de Pão de Açúcar, guarda o corpo de João Novato, o qual, segundo Antônio Pinto, é o verdadeiro Lampião (Foto: Cortesia de Antônio Pinto)

Polêmica, ataques e segundo livro

Antônio Pinto contou que, durante o processo de pesquisa e também após a publicação do livro, em 2020, sofreu muitos ataques, disseram que ele queria apenas aparecer e ganhar notoriedade porque ele estava levantando provas para contestar uma versão aceita pela maioria dos historiadores e autoridades que trataram do assunto antes dele.

“A tese é inquestionável. Depois que leram o livro, ninguém atacou mais. Nenhum parente deles (de Lampião e Maria Bonita) chegou a me procurar para dizer nada, nem para concordar nem para discordar. Mas soube que alguns poderosos e estudiosos chegaram a investigar a minha tese para me desmoralizar. Porém, isso não aconteceu”, recordou.

Com mais provas e mais depoimentos, alguns dos quais inéditos, Antônio Pinto preparou outro livro, um segundo volume sobre o mesmo tema, que já está na editora, dessa vez em Alagoas, o qual deve ser publicado antes do final do ano.

“Lampião e Maria Bonita, a farsa das mortes no Angico” é o título da publicação, que vai reforçar e detalhar o que já foi exposto no primeiro livro, além de trazer mais elementos para lançar um novo ponto de vista sobre a versão oficial da suposta morte de 11 cangaceiros naquele 28 de julho de 1938.

Escritor e artista plástico Antônio Pinto, natural de Pão de Açúcar, é autor de dois livros que trazem novos elementos e recontam o fim do cangaço e as mortes de Lampião e Maria Bonita (Foto: Arquivo Pessoal)

O escritor Antônio Pinto concedeu entrevista ao jornalista Jota Silva, na Rádio Correio FM, em Delmiro Gouveia, nesta terça-feira (24). A entrevista foi transmitida pelo Instagram do portal Correio Notícia e pode ser conferida abaixo:

Postada em 24/08/2021 15:24 | Atualizada em 25/08/2021 08:27
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