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Wellington Amâncio

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Quem é Wellington Amâncio ? Professor, fotógrafo, escritor e músico; mestre em Ecologia Humana e Gestão Socioambiental pela UNEB; especialista em Ensino de Filosofia (UCAM); graduado em Pedagogia e em Filosofia (UNEB).
Framuk, um vampiro no Carnaval

Este conto é para você que está em casa, distante do Carnaval. Encontrará algum humor nestas linhas, sobretudo se neste momento você está só e otimista com a vida. Recomendo que feche bem a janela e durma com um olho aberto.


De madrugada, vi um ataúde grande e ocreado sendo retirado de um caminhão, e não hesitei em saber o que estava acontecendo — visto minha obrigação de vigilante noturno. Ocultaram-no pelos fundos do Casarão Velho, indo acomodá-lo num quarto escuro e quase nunca habitado, depois do estranho falecimento do Padre Erasmo Pantaleão, ali visitante, quando deitado naquela cama empoeirado onde agora descansa o ataúde. Perguntei ao encarregado o porquê de um caixão de madrugada. Ele me respondeu que “eram coisas internas” e que eu perguntasse ao proprietário. Averiguei aquela caixa de madeira escura e sombria — estava lacrada e continha, discretamente sobre a tampa, uma etiqueta preta com letras góticas, douradas; anotei a inscrição: Ordin provenit din Ardeal, în grija colonelul Pedro (Ordem da Transilvânia, sob os cuidados do coronel Pedro). Não é latim, mas Romeno — descobri depois.


Ali, ainda no quarto de paredes pintadas a cal, uma cruz dependurada desaparecia aos poucos na poeira. Encarei os dois ajudantes silenciosos, pálidos, vestido de capa preta, de modo que eu não esquecesse seus rostos incomuns; quanto ao encarregado, eu já o conhecia pela fama de ser maloqueiro e alcoólatra.


Me retirei daquele quarto sombrio, sentido estranhos arrepios e uma vibração elétrica sobre todo o corpo. O ar ficara carregado, e um misto de frio e medo parecia arranhar a minha pele. Segui para casa pensativo e evitando becos escuros, aliás, eu não conseguia me desvencilhar daquela cena; eu sabia que certas coisas não deveriam ser vistas e que ao vê-las, estas nos marcam, às vezes para sempre. Ao chegar em casa, não conseguir tomar banho, ou mesmo atender às demandas fisiológicas do meu corpo, isto porque meu banheiro ficava no fundo escuro do quintal. Deitei-me cheirando a suores, e sei que minha esposa só não reclamou porque estava dormindo profundamente. Na cama, lembrei-me daquele caixão estranho, quadrado, escuro e antigo; lembrei-me que somente não pedi para averiguar seu conteúdo porque ouvira uma voz dizer dentro de mim, aconselhando-me: “Não mexa no que está quieto!” —, desde sempre dou ouvido a essa voz, que me livrou de assaltos e até de emboscadas. Na cama, às duras penas consegui cochilar, e no primeiro tosquenejo salto de um susto, muito suado e um tanto febril. Percebi de logo que seria-me um daqueles dias de insônia, sobretudo porque percebi uma presença escura e muito alta, quase translúcida, a me observar, em nosso quarto, rente à cama. Tentei ignorar minha percepção, dizendo para mim mesmo que o que intuía ou percebia de estranho no quarto era tão-somente pelo efeito do medo, porque assombrações não existem. Neste, caso, algumas vezes a mentira é um paliativo, porém de efeito curto, porque ao me distrair, acabei outra vez cochilando, e adentrei ligeiramente num sono que me concedeu um sonho agitadiço: vi paisagem nublada, e ao final de uma cadeia de íngremes cordilheiras, divisei um tenebroso castelo, entre uma coluna e outra de névoa; me aproximei sem maiores esforços, como se levado pelo vento; dentre as ameias do castelo, para a noite densa vi saltar um morcego grande, que desapareceu no negror da paisagem. Acordei de um sobressalto percebendo que havia molhado a cama de suores e incontinência. Acordei minha esposa, depois de chacoalha-la quase uma dezena de vezes. Ela me esperou à porta do banheiro, enquanto eu me banhava. No quarto, contei-lhe o que ocorrido e ela me convidou para rezar. Repetimos várias vezes algumas orações, até que obtive sossego.


Nas noites que sucederam-se à chegada do esquife no Casarão Velho, soubemos de rumores, advindos dos povoados, acerca de novilhos que amanheceram mortos — dois furos na jugular e nenhum resquício de sangue. Em janeiro, numa sexta-feira, o município acordou sob grande comoção, por causa do sumiço inexplicável de criança de colo. Semana depois, uma jovem desapareceu sem explicações, ao circular sozinha à proximidade do Casarão Velho. Confesso que me foi difícil trabalhar... e vigiar pelas madrugadas, ciente das notícias macabras e das calamidade que nos assolavam. Lembro-me que um religioso louco, apelidado de Zé Profeta, perambulava embriagado por aí, e na calada-da-noite vociferava pelos becos — “Este município é já maldito, e o diabo por aqui anda solto! Não haverá misericórdia para vós outros!”, ou ainda, “Eu vi um bicho que usa capa e rapta criancinhas! Acautelai-vos, oh, pecadores miseráveis!”.


Todavia, minha curiosidade era maior que meu medo. Eu precisava investigar. De sorte que eu conhecia a senhora Dona Dalva, a camareira do Casarão Velho, e me dirigi até lá certa manhã. Bati na porta e aguardei ansioso. O tempo parecia se arrastar, até que a senhora Dona Dalva veio me recebe. Com a maior discrição possível fiz-lhe algumas perguntas. Contou-me umas história — seu rosto estava abatido, e vi-a empalidecer cada vez que se referia ao “visitante”:
— Aquele que está aqui não toma café da manhã, nem almoça, nem janta... — disse-me, cabisbaixa.
— Dona Dalva, por favor, quem é esse homem misterioso? — sussurrei olhando para os lados.
— Eu não sei... mas desde que chegou, trouxe-nos inquietações, lá no fundo das nossas almas. Tenho um mal pressentimento. — concluiu com os olhos marejados.
Ao ouvir tais relatos e ao observar a tristeza daquela senhora, saí dali imediatamente, e nem me lembro de ter me despedido dela.


Naqueles dias, por causa do impasse entre obedecer ao medo ou à obrigação de trabalhar, eu andava quase entupido de Rivotril, pelas madrugadas, não sabendo por isso definir bem, o real da irrealidade. Minha situação era a um só tempo penosa e humilhante, porque eu (como se sabe) já há alguns anos sofria de incontinência estomacal, sendo assim obrigado a usar fraudas geriátricas por baixo da minha calça camuflada de vigia noturno. Lembro-me que resolvi meu impasse ao decidir pela demissão (porque preferiria pedir esmola na esquina, em vez de me submeter ao terror), porque certa madruga, num beco escuro e estreito, surgiu-me abruptamente o Zé Profeta gritando em minha cara: “Vai de reto, Satanás!”. Não sei quem estava mais apavorado, se eu ou ele, contudo parecia-me ali que todos os cachorros do muito latiam ao nosso redor — e em cima do poste de luz queimada, a sombra de uma coruja nos observava. No susto, o Zé Profeta deixou cair sua garrafa de Pitú, espatifando-se no chão em cacos, e seu estrépito agudo atiçou ainda mais o latido dos cães. Cheguei ao limite! ao pico subiu o meu estresse, e confesso que senti vontade de assentar o cassetete no lombo magro do Zé Profeta, mas não o fiz porque sempre tive domínio da situação.


Certa vez — lá pelas 23 horas da noite, quando eu vinha da casa da minha mãe —, vi saltar à minha frente, vindo não sei de onde, um varão de quase dois metros de altura. Vestia-se de preto e usava uma longa capa, que achei bonita. Tinha o rosto afilado e pálido, tal a um europeu, e me encarava com olhos mal intencionados e de enormes olheiras. Ele me disse numa voz muito rouca, ao estilo Miles Davis: “Você não me serve! Vá passando, seu anão!”. Percebi que possuía um sotaque estranhíssimo, mas não quis permanecer ali, no intuito de analisar o modo como pronunciava os “erres”. Mais tarde, quando o susto passou, lembrei que enquanto falava, sua língua, seus dentes e lábios estavam manchados de sangue recente. Recordo ainda que sobre os seus braços carregava um saco espesso de cor ocre, e tenho certeza que seu conteúdo era humano — devido ao formato. Eu e alguns outros sabíamos da calamidade pela qual passava o município. Havia como que uma domo escuro sobre todos nós! Somente percebemos algum calmaria e certa ausência de trancoso, ao findar de Janeiro daquele fatídico 1999.


Não disse a ninguém que de madrugada, semana antes do Carnaval (quando os blocos já se manifestam pelas ruas), avistei aquele homem alto e pálido, vestido de preto, escondido no canto da enorme janela do Casarão Velho. Parecia balançar a cabeça ao ritmo dos apitos, pandeiros, repiques, tamborins, surdões e maracas. Após isso, encontrei por acaso a senhora Dona Dalva, que cochichou em meu ouvido: “O bicho já almoça e janta... Conversei com ele... Seu nome é Framuk Nicolescu, é cordial, é um cavalheiro. Veio da Romênia para comprar umas terras... É homem de presença, pouco falante, bonito e inteligente, porém sem brilho, como se lhe faltasse alma...”.


Uma semana para o Carnaval. Alguns blocos desfilavam batucando aqui e ali, e por vezes nos faziam esquecer os dias de apuros vividos, trazendo-nos certa alegria. Já não ouvíamos notícias ruins. Nesse período encontrei Framuk à noite, num boteco. Estava assentado num banco alto — os olhos apertados, estava mastigando alguma coisa sobre as duas mãos. De início temi sua presença esquisita, todavia me aproximei devagar, e, para a minha surpresa, vi-o comendo um pastel de queijo, com todo gosto. Achei engraçado o modo como usava ketchup, derramando-o fartamente. Em seguida, bebeu um grande copo de Coca-Cola em apressados goles, como se o mundo fosse acabar de sede, e seus olhos encheram-se de lágrimas (não por comoção, mas porque o líquido era agridoce e muito gelado). Nesse momento, lá fora alguém vocifera, e um grupo de rapazes, ao compasso de apitos, começa a batucar com muitas força. Com os primeiros estrondo da percussão, Framuk arregala os olhos, arremessando o pastel de queijo para cima, ao passo que se joga debaixo de uma mesa. Ninguém parece notar a sua reação, até que me dirijo a ele e digo-lhe com um sorrido, “É festa!”. Ele diz, “Não! É confusão!”. Tento explicar-lhe a situação como posso, Acho que o convenço e ele me acompanha até a janela. Ficamos contemplando aquele pequeno carnaval antecipado. Percebi-o atento aos passos dos frevistas e aos compassos da percussão. Disse-me, “Aquele na frente é o chefe...”. Expliquei-lhe que não havia chefia num carnaval. Acho que Framuk compreendeu o que disse, porque até a chegada do Carnaval não havia um bloco em que ele não estivesse próximo, contemplando, ou no meio dos percussionistas, observando-os, estático. E seu mote tornou-se logo conhecido de todos, quando dizia-nos (aliás, ensaiando algum sorriso), “Aqui tudo é leve e ensolarado, e musical!”.


Quase que instantaneamente acostumou-se ao burburinho, à festividade e aos dias ensolarados. Disse-nos balançando a cabeça ao ritmo de um samba: “Se antes eu soubesse acerca desta paisagem ao meu redor, viria com roupas estampadas, floridas, e não de preto, dentro de um caixão”.


Considerando sua sede sem fim, nos surpreendemos que hoje sacie-se única e exclusivamente com outro líquido também controverso: “Se antes eu soubesse que a cachaça era tão boa assim, jamais teria bebido sangue na ‘vida’!” — ele nos dizia cambaleando pelos cantos.


Noite densa e úmida. Num beco sombrio e estreio, uma jovem carnavalesca seguia para casa, na alta madrugada. Repentinamente uma sombra de capa negra salta em sua frente. A moça estremece, e num grito agudo e longo de terror cambaleia para o lado, e já ia cair quando Framuk a segura ternamente:
— Boa noite, moça. Como vai? Tudo bem? Não lhe farei mal. Nem pense nisso! Na verdade eu queria saber se você poderia me dar uns R$ 2,00 para eu comprar um Corote. Por obséquio, me descola um trocado aí?


Nos dias de Carnaval, o víamos perambulando para lá e para cá, inquieto no meio da multidão, vestido em sua capa preta de golas levantadas e botas lustrosas, acima do joelho. Alto e muito pálido, e muito sério, quase não mais impunha-nos sua aparência amedrontadora, que se diluía a cada novo gesto carnavalesco seu. Permanecia por ali, garrafa de pinga na mão, olhar austero para nenhum lugar; onde ele estivesse abria-se uma roda para vê-lo sambar. E ao som de samba acelerado, executava uns requebrados radicais, colocando seu traseiro murcho para os lados e agachando-se de tal forma, que às vezes nos fazia duvidar da ação da gravidade sobre seu corpo. Suspeitávamos que sua coluna contivesse elasticidades absurdas. Por causa desses requebrados desvairados, desconfiávamos que Framuk utilizasse dos seus poderes de vampiro para sambar absurdamente (e com uma garrafa de cachaça na mão...). Pensávamos com unanimidade que do jeito que sambava seria muito superior às melhores passistas de sambas da avenida de todos os tempos, nenhuma das garotas da Mangueira, ou da Portela superariam suas performances quebra-quadris!
— Esta terra oferece-nos maravilhas tais, de modo que transmuta-se a nossa natureza mais íntima — dizia-nos muito suado e ofegante, exalando cheiro de cachaça, com seu lança perfume multicolorido na mão.


Pergunte-lhe discretamente se já tinha namorada. Ele me olhou desconfiado e disse: “Eu tenho mais de 800 anos! Sou um velho que não tem mais o que oferecer... e o único pecado que vou carregar até o fim é o de beber cachaça.”.


Estava mudado, não mais assombrava; para muitos suscitava até o riso, quando sambava tal a um louco desvairado, e vestido ainda de capa preta! Eu e muitos outros cidadãos de bem tínhamos grande ressentimento dele, e até raiva, porque se corrompeu de todo — e por muito pouco —, deixando sua essência diabólica de lado, para adotar outra demasiadamente destoante, porque ao sambar de capa preta era para nós impossível diferenciar o macabro do festivo; era impossível agora reconhecermos as diferenças de um ataque vampiresco de um passo de requebrado. Quando deixou de fazer sua função tradicional, seu papel necessário neste mundo (morder pescoços e chupar todo o sangue), para sapatear e viver bebendo pinga em botecos, também roubou de nós nosso valioso medo, desencantando nossas superstições e execrações. Fez-nos desacreditar das nossas históricas de trancoso, contadas por nossos pais, roubou-nos também aquele nosso pavor do escuro. E agora? E o gato preto, e a coruja noturna ao pé das nossas janelas, e os lobisomens, dragões e monstros? Todo viraram confetes no chão dos frevistas! Todas as assombrações malévolas perderam-se no carnaval. Como pôde Framuk lidar por séculos com a sua velha arte, ao ponto de, através de devotada prática, tornar-se uma virtuose do mal, para em seguida, sem mais nem menos, cair de corpo e alma numa atividade diametralmente estranha, divergente, como a boemia? Fico me perguntando hoje se abandonar o gosto por sangue, para adotar o gosto por cachaça, não seria evidência de cura, ou de inversão do vício, ou ainda falta de caráter?

Postada em 22/02/2020 00:00 | Atualizada em 22/02/2020 00:04
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