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Empreendedorismo: agricultor recupera área de caatinga degradada e devolve vida ao Sertão
Ele adotou novas práticas, colaborou para estagnar a desertificação e desenvolveu o uso sustentável dos recursos naturais
Por Diego Barros
Seu Noé e a neta visitam açude de criação de peixes em área de caatinga que ele ajudou a recuperar - Foto: Diego Barros

“Que ela fique velhinha e nunca derrube nenhuma árvore, que cace um canto debaixo de uma árvore e plante a comida dela”. Esse é um dos conselhos que o agricultor Noé Paulino Gomes, de 58 anos, pretende dar à neta Luiza, de apenas um ano e seis meses de idade, que ele carrega nos braços durante a visita a uma área de sua propriedade, com cerca de 150 tarefas, no Sítio Lages, zona rural de Piranhas, no Sertão alagoano.

Devido às chuvas de verão dos últimos meses, o local, que possui de volta sua vegetação nativa, a caatinga, está verde e exuberante, com a natureza se mostrando em cada detalhe. Bastam alguns passos pelo leito de um riacho, sombreado pela copa das maiores árvores, entre elas uma craibeira quase centenária, para ver centenas – talvez milhares – de filhotes de sapos, medindo não mais que dois centímetros, se esconderem em pequenos furos na terra ou no tronco das plantas, num movimento quase sincronizado. O canto dos passarinhos, mesmo que eles não queiram aparecer, é presença constante.

Mais adiante, num açude, incontáveis abelhas utilizam a água para saciar suas necessidades. No mesmo reservatório existem peixes e o local também é utilizado para matar a sede de diversas espécies de aves, anfíbios, répteis, mamíferos e outros insetos.

Abelhas das colméis instaladas por seu Noé buscam água no açude que ele criou ao represar a água da nascente (Foto - Diego Barros)

Mas nem sempre foi assim. No passado, quando era jovem e sem perspectiva de melhoria da condição de vida, castigado pela seca, pela falta de assistência técnica, sem acesso a tecnologias de produção, sem saber como realizar a exploração sustentável do bioma que o cercava e preocupado com as necessidades daquele momento, seu Noé derrubou a mata da caatinga para plantar palma.

Segundo ele, já naquela época, mais de 30 anos atrás, a forrageira era uma garantia de retorno financeiro, mesmo que apenas após alguns anos, quando a planta podia ser colhida para servir como alimentação animal. Assim como outros pequenos e grandes proprietários de terras da região, que viam na caatinga apenas uma área sem vida, sem condições de garantir o suprimento das necessidades de uma família e até sem utilidade, ele decidiu pôr a vegetação abaixo.

Porém, alguns anos depois, seu Noé concluiu que a empreitada não valeu a pena, pois suas condições financeiras continuavam as mesmas. Ele percebeu também que o Riacho do João Crioulo, que antes corria por ali, diminuiu sua quantidade de água durante o período de chuvas e que a fauna e a flora estavam desaparecendo.

Água que brotava salgada agora é doce

Riacho Salgado é o nome de outro pequeno manancial temporário, cuja nascente fica na propriedade de seu Noé, e que tem esse nome porque a água que brota em um lajedo – local tomado por grandes rochas semienterradas no solo – sempre foi salgada ou salobra. “Isso aqui, em cima dessas pedras, ficava tudo branco por conta do sal”, contou o agricultor.

Porém, quando ele decidiu que o melhor a fazer era deixar a caatinga voltar a ocupar o lugar que sempre foi dela, alguns anos atrás, a água que passou a brotar para dar origem ao riacho Salgado se tornou doce. “Eu sei que isso foi por causa dessa mata que cresceu de novo aqui ao redor da nascente”, palpitou seu Noé.

Devido à mudança na qualidade da água e na maior quantidade que passou a brotar do chão, ele resolveu fazer um “paredão” para acumular o líquido. Assim, formou um açude, onde cria peixes. A mesma água também serve para dar ao gado, para saciar diversos animais que rodeiam o local e para atender a alguns agricultores da vizinhança.

Por outro lado, seu Noé lembra que não empreendeu os mesmos esforços que usou para derrubar a mata para garantir o replantio das espécies nativas, mas apenas sua atitude de não mais derrubá-la e deixar a caatinga se recuperar por si só já foi importante. O resultado, anos depois, foi o crescimento da vegetação, com toda sua diversidade de plantas e o retorno de diversos animais.

Como testemunha de todas essas mudanças, seu Noé aponta para uma árvore da espécie craibeira que, segundo ele, é centenária. “Quando eu era jovem, ela já era assim grande. Não tive coragem pra derrubá-la quando decidi plantar palma aqui”, recordou. A árvore se tornou, dessa forma, símbolo da resistência e remanescente de três épocas distintas: a caatinga em seu estado bruto, sem intervenção humana; o desmatamento que deu lugar à agricultura; e a recuperação da área, possível graças à conscientização. Atualmente, a craibeira também é considerada a árvore-símbolo de Alagoas.

Diante da imponente e centenária craibeira, árvore-símbolo de Alagoas, seu Noé segura a neta Luíza, a quem passa ensinamentos sobre preservação ambiental (Foto - Diego Barros) 

Empreendedorismo: preservação aliada à apicultura e à olericultura

O ressurgimento da vegetação da caatinga e da água foi decisivo para que o agricultor adotasse duas novas atividades produtivas: a apicultura e a olericultura. A apicultura surgiu há seis anos e, de lá para cá, seu Noé e o filho, Fagner Gomes, vêm buscando orientação e, entre erros e acertos, conseguem produzir mel e incrementar a renda da família.

Segundo eles, em 2015, como houve poucas chuvas, colheram apenas cerca de 100 quilos de mel das 30 caixas com enxames que instalaram na área preservada. Foi decisivo para essa nova atividade, conforme seu Noé, a existência das árvores e da água. “É disso que as abelhas precisam, se não, elas vão embora”, explicou.

“Cada caixa de abelha é como se fosse uma empresa e a gente precisa dar condições de trabalho para elas”, salientou Fagner Gomes, que completou dizendo que, em 2013, por conta da seca prolongada, eles perderam quase 15 enxames durante o verão. “Também por causa da falta de conhecimento”, emendou.

Quando as chuvas são bem distribuídas ao longo do ano, segundo Fagner, é possível fazer até quatro colheitas de mel. Toda a produção é entregue à Cooperativa dos Produtores de Mel, Insumos e Produtos da Agricultura Familiar (Coopeapis), que mantém uma casa do mel no povoado Piau, a poucos quilômetros do Sítio Lages. Lá, o mel é processado e embalado para distribuição, inclusive para a merenda das escolas.

Colméias produzem mel na área de vegetação de caatinga e ajudam a incrementar a renda da família de seu Noé (Foto - Diego Barros)

Gestor do Arranjo Produtivo Local (APL) de Apicultura no Sertão, Cristian Cavalcante, da Secretaria de Estado do Desenvolvimento Econômico e do Turismo (Sedetur), aponta que muitos apicultores da região já desenvolvem práticas sustentáveis, assim como vem fazendo seu Noé, visando preservar o bioma da caatinga para que possam incrementar a produção de mel. Outros, porém, ainda não se abriram para essa necessidade.

“Neste ano vamos desenvolver ações para despertar nos apicultores a necessidade de se utilizar plantas que tenham potencial melífero, ou seja, aquelas que colaboram para que as abelhas produzam o mel e que são plantas típicas da caatinga, como a jurema e a craibeira”, detalhou Cristian Cavalcante que, por meio do APL, trabalha com 250 apicultores, que estão organizados em 12 associações e três cooperativas. São elas: Coopmel, Copasil e Coopeapis.

Segundo o engenheiro agrônomo Pedro Acioli de Souza, que é consultor do Sebrae/AL nas áreas de apicultura, meliponicultura e meio ambiente, existe uma simbiose entre flor e abelha que precisa ser compreendida pelos agricultores para que eles façam a preservação. “As abelhas são os agentes polinizadores de 70% dos vegetais. Desse modo, elas colaboram para a multiplicação das plantas e recuperação das áreas degradadas da caatinga. Ao mesmo tempo, as abelhas precisam do néctar das flores para produzir o mel”, explicou o agrônomo.

Porém, ele apontou que a falta de um serviço de assistência técnica continuado aos agricultores dificulta esse processo de compreensão e, como consequência, de preservação do bioma. “Eu percebo que ainda falta conscientização dos apicultores. Mas eles precisam compreender que só terão o mel se tiverem cobertura vegetal e água. As abelhas são migratórias. Sem as condições adequadas, elas vão embora”, avaliou Pedro Acioli de Souza.

Num guia da editora Fundação Brasil Cidadão, disponibilizado pelo portal na internet do Ministério do Meio Ambiente (MMA), os autores informam quais são as árvores da caatinga mais visitadas pelas abelhas e que podem, portanto, facilitar a produção de mel. Entre elas, além da jurema e da craibeira, estão: aroeira, cajueiro, umbuzeiro, carnaubeira, pau-d’arco-roxo, pacoté, pau-branco, imburana, catingueira, angico, sabiá, espinheiro e juazeiro.

Na Casa do Mel, no povoado Piau, em Piranhas, o produto trazido pelos agricultores, entre eles seu Noé, é processado e embalado (Foto - Diego Barros)

A aposta de seu Noé e do filho Fagner no empreendedorismo sustentável também contempla a produção de hortaliças, atividade conhecida como olericultura. Segundo eles, a atividade ainda está no início e os dois não têm muita experiência, mas pretendem se aperfeiçoar.

Para levar a ideia adiante, contam com a presença da água no açude que fizeram no leito do riacho Salgado e em duas cisternas – uma do tipo calçadão, também conhecida como cisterna de segunda água, aquela usada para as atividades produtivas, e outra de primeira água.

Por outro lado, a propriedade conta com rede de abastecimento, mas como o serviço, segundo eles, é precário, o ideal mesmo é manter as três fontes alternativas. “Eu acredito que a produção de mel e de hortaliças ainda vai ser nossa principal fonte de renda”, observou seu Noé, que também possui algumas cabeças de gado e de ovelhas.

Caatinga conserva apenas 20% de sua área original

Devido a medidas do passado e a outras do presente, que continuam sendo praticadas por milhares de proprietários rurais no Brasil, o desmatamento da caatinga chega a 46% da área do bioma, segundo dados do Ministério do Meio Ambiente (MMA). Ela ocupa uma área de cerca de 844.453 quilômetros quadrados, o equivalente a 11% do território nacional. O órgão aponta que o desmatamento, nos dias atuais, se deve ao consumo de lenha nativa, explorada de forma ilegal e insustentável, para fins domésticos e indústrias, ao sobrepastoreio e à conversão para pastagens e agricultura.

Em Alagoas, a situação é ainda pior. De acordo com dados da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos (Semarh), a cobertura vegetal remanescente para a caatinga é em torno de 20%. Isso significa que os outros 80% foram derrubados para dar lugar a cidades, pastagens ou criação de gado. A iniciativa de seu Noé, por outro lado, é um passo necessário para mudar essa realidade.

Em Alagoas, a cobertura vegetal remanescente para a caatinga é em torno de 20% (Foto - Diego Barros)

Desertificação pode comprometer 46 municípios do semiárido

Enquanto seu Noé decidiu dedicar cerca de 150 tarefas de terras de sua propriedade, que tem ao todo 189, para a revitalização da caatinga, outros produtores ainda desenvolvem práticas de exploração nocivas à manutenção desse bioma. Devido a essa situação e ao agravamento de fenômenos climáticos, como o El Niño, que tem prolongado o período de seca e reduzido as chuvas no semiárido, nos últimos quatro anos, 46 municípios da região correm o risco de desertificação. Outros 19 municípios do estado também estão propensos ao mesmo fenômeno e, somados, eles equivalem a 62% dos municípios alagoanos.

Os dados são da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos (Semarh), que desenvolve algumas ações para tentar preservar o bioma caatinga, reduzir as causas da desertificação, que têm no homem seu principal agente, e, ao mesmo tempo, educar, fiscalizar e punir quem infringe a lei e comete crimes ambientais.

Segundo o superintendente de Meio Ambiente da pasta, Matheus Gonzales, essas ações incluem: o diagnóstico de áreas prioritárias para preservação; o estimulo aos proprietários rurais para que preservem as áreas de nascentes e encostas; a recuperação das nascentes; a perfuração de poços para o abastecimento humano ou animal; a dessalinização dessa água oriunda do subsolo, quando necessário; a criação de um Plano de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca; a construção de barreiros; o Canal do Sertão; a Fiscalização Preventiva e Integrada (FPI) do São Francisco, em parceria com o Instituto do Meio Ambiente (IMA/AL) e outros órgãos; o estímulo à criação de Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs).

Apesar da degradação de cerca de 80% de sua cobertura original, a caatinga alagoana possui algumas áreas de preservação, conforme destacou o superintendente Matheus Gonzales. Uma delas é uma unidade de conservação federal, chamada de Monumento Natural do Rio São Francisco, que inclui áreas dos municípios de Delmiro Gouveia, Olho D’água do Casado e Piranhas.

Existe também a Reserva da Vida Silvestre Morro do Craunã, em Água Branca. “Outras duas áreas estão em estudo, uma chamada de Caiçara e outra de Taborda”, pontuou o superintendente, que destacou ainda a existência de algumas RPPNs na região.

Mesmo degradada e com algumas áreas em processo de desertificação, a caatinga abriga, segundo o Ministério do Meio Ambiente, 178 espécies de mamíferos, 591 de aves, 177 de répteis, 79 espécies de anfíbios, 241 de peixes e 221de abelhas.

No sítio Lages, no Sertão de Alagoas, seu Noé não construiu uma arca, como fez o personagem homônimo da história bíblica, mas preservou uma área que agora recebe muitas dessas espécies e onde elas podem se multiplicar para que, no futuro, a neta Luíza possa dar continuidade ao trabalho iniciado pelo avô.

Hoje na contramão do processo de desertificação da caatinga, seu Noé preserva o bioma e garante água o ano inteiro para suas atividades produtivas (Foto - Diego Barros)

 

Postada em 09/04/2016 18:07 | Atualizada em 11/12/2018 22:57
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