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Fósseis achados em Alagoas explicam evolução de espécies e mudanças no meio ambiente
Estado já registra 60 sítios paleontológicos em 24 municípios, a maioria no Sertão, com espécies da megafauna da Era do Gelo
Por Diego Barros
Seu José Santos e dona Maria dos Prazeres seguram partes dos fósseis que eles encontraram - Foto: Diego Barros

Na tentativa de acumular a água da chuva que cai durante poucos meses ao ano, o sertanejo rasga a terra seca da caatinga usando foices, enxadas e outras ferramentas para abrir barreiros e açudes. Nesse ambiente onde a vida só é abundante quando chove, os animais criados para gerar alguma renda, como bois, vacas e ovelhas, sofrem com a falta de pasto e de água.

Mas é justamente nessas escavações à moda antiga, orientadas apenas pelo senso comum, que muitos agricultores encontram provas de que o Sertão, num passado remoto, já foi uma terra fértil, verde, cheia de água e povoada por animais gigantes. Foi o que aconteceu na propriedade dos agricultores José Santos da Rocha, de 58 anos, e Maria dos Prazeres Cardoso dos Santos, de 56 anos, no Sítio Lages, zona rural do município de Piranhas, em Alagoas.

Durante a escavação de um barreiro no leito de um riacho seco, eles encontraram fósseis de um bicho-preguiça gigante que viveu ali na chamada Era do Gelo. Pais de 5 filhos e naturais do estado vizinho, Pernambuco, os agricultores moram na propriedade há apenas dois anos e, assim como os demais produtores rurais da região, convivem com as estiagens prolongadas, os “apertos” provocados pela falta de pastagem para o gado e a plantação determinada pelo ritmo das chuvas, que geralmente ocorrem de maio a agosto.

“Primeiro eu pensei que era osso de cavalo ou de boi. Mas depois a gente viu que era muito grande, era de bicho estranho, que existiu na terra há muitos anos”, disse seu José que, juntamente com a esposa, dona Maria, e o vizinho, seu Noé Paulino Gomes, que o ajudou na definição do local a ser escavado para construção do barreiro, resolveu divulgar o achado dos tais ossos estranhos para descobrir a qual animal realmente pertenceram.

“No começo eu não dei importância, não, que osso pra mim não tem prestígio”, lembrou seu José. Foi então que a descoberta dele chegou até o professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e paleontólogo Jorge Luís Lopes, que há 20 anos trabalha com sítios paleontológicos descobertos em Alagoas. Ao visitar o local, em janeiro deste ano, o professor confirmou que o material eram fósseis de um bicho-preguiça gigante que viveu no Sertão na chamada Era do Gelo.

Seu José disse que nunca tinha ouvido falar em fósseis nem num animal desse porte que, segundo o professor, podia chegar a seis metros de comprimento. “Nossos pais eram roceiros, catingueiros, pensavam que o bicho maior que existia aqui era boi, cavalo, jegue. Mas era bom que nós ‘achasse’ aqui a carcaça dela (do bicho-preguiça) completa, ficava bonito pra ver ela toda montada”, observou o agricultor, que agora mantém o local preservado e cessou a escavação na área onde ainda estão as outras partes dos fósseis, que não foram recolhidas pelo paleontólogo da Ufal.

Local da escavação do barreiro para acumular água da chuva tornou-se um sítio paleontológico (Foto - Diego Barros)

Alagoas tem 60 sítios paleontológicos em 24 municípios

De meados da década de 1990, quando começou o estudo e a catalogação dos sítios paleontológicos em Alagoas, até agora, o professor Jorge Luís Lopes identificou 60 locais onde foram encontrados fósseis de animais da chamada megafauna, da Era do Gelo, em 24 municípios, a maioria deles no semiárido. Após a descoberta de algum fóssil, o lugar passar a ser chamado de sítio paleontológico e é georreferenciado.

Seu trabalho começou com a coleta de dados para o mestrado e depois para o doutorado. Em seguida, com o apoio da Ufal e de entidades financiadoras de pesquisas científicas, como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), foi criado o Projeto Fósseis de Alagoas. E, em 20 anos de pesquisas, o que o professor e seus colaboradores – entre estudantes de graduação em Biologia, mestrandos e doutorandos – já descobriram?

“No período Pleistoceno nós tínhamos no Sertão uma considerável biodiversidade, o ambiente era semelhante a uma savana. Esses animais que vivam aqui também migravam, se deslocavam. Havia muita água e alimento, água perene, havia perenização das fontes e vegetação condizente com isso. Já encontramos muitos herbívoros, mas também fragmentos de tigre-dente-de-sabre, que era o predador, era carnívoro e estava no topo da cadeia alimentar. Entre os herbívoros, estavam preguiças-gigantes, mastodontes, tatus-gigantes, as paleolhamas, que eram lhamas muito maiores do que as de hoje, e cervídeos”, detalhou o paleontólogo.

Réplicas em miniaturas de animais da megafauna ficam expostas no Museu de História Natural da Ufal (Foto - Diego Barros)

Segundo ele, todo o material encontrado é recolhido, dentro dos padrões científicos para remoção, e levado para o Museu de História Natural da Ufal, que fica em Maceió. “A universidade se torna a fiel depositária desse material, que é patrimônio da nação, da União. Esse material, ao ser encontrado, não pertence ao agricultor que o achou, ele deve ser repassado à autoridade competente para isso”, explicou o pesquisador.

A idade mais recente dos fósseis de mamíferos da megafauna, segundo ele, chega a 10 mil anos, mas já foram datados fósseis com 15 mil anos e até com 84 mil anos. Mas há em Alagoas fósseis de outros animais ainda mais antigos. “Na região litorânea tem fósseis com idade geológica muito maior”, completou Jorge Luís.

De acordo com ele, quando o município demonstra interesse em manter os achados ou partes deles em sua sede, isso é possível, pois assim o material estaria num acesso mais fácil para a população local e também pode servir como incentivo ao turismo. “Tem que haver o interesse da gestão municipal, aí nós damos consultoria até que seja providenciado um local específico e adequado para manter os fósseis”, salientou Jorge Luís. No Sertão de Alagoas, o município que até agora melhor aproveitou os achados paleontológicos para se promover foi Maravilha. Na cidade foi criado um pequeno museu e réplicas dos animais que viveram ali, construídas a partir dos fósseis descobertos na zona rural do município, agora decoram as praças e os locais públicos. Maravilha se tornou a “cidade temática do período Pleistoceno” no Brasil.

Réplica em tamanho real do bicho-preguiça gigante foi instalada na cidade de Maravilha, em Alagoas (Foto - Barco do Espaço Leite)

Inhapi, também no Sertão, é outro município que, segundo o pesquisador, está construindo um local para abrigar parte dos fósseis encontrados em seu território. A instalação servirá como um centro de cultura, onde diversas atividades serão realizadas, entre elas a visitação aos achados fósseis que contam uma parte da história do lugar.

Os fósseis de mamíferos gigantes também já foram encontrados, além de Maravilha e Inhapi, nos seguintes municípios alagoanos: Água Branca, Anadia, Cacimbinhas, Canapi, Delmiro Gouveia, Dois Riachos, Igaci, Jaramataia, Major Izidoro, Olho D’água das Flores, Olho D’água do Casado, Olivença, Ouro Branco, Palmeira dos Índios, Pão de Açúcar, Penedo, Piranhas, Poço das Trincheiras, Santana do Ipanema, São José da Tapera, São Luiz do Quitunde e Senador Rui Palmeira.

Seu José mostra local onde ainda permanecem outras peças do fóssil do bicho-preguiça que ele encontrou durante a escavação do barreiro (Foto - Diego Barros)

Fósseis ajudam a entender variedade de espécies e mudanças ambientais

Através do estudo dos fósseis, os geólogos são capazes de identificar o paleoambiente gerador das rochas sedimentares, bem como sua idade relativa, o movimento dos continentes, a variação do clima da Terra, entre outros aspectos. Por outro lado, a indústria do petróleo utiliza-se das informações oferecidas pelos fósseis para encontrar óleo e gás natural. Já os biólogos procuram entender como surgiu a grande diversidade de organismos e, para isso, utilizam os fósseis nos seus estudos evolutivos.

O entendimento dos processos que controlaram a evolução e dispersão dos organismos por toda a Terra são úteis para a compreensão de temas como o surgimento da vida, o surgimento de novas espécies e crises biológicas. “Os fósseis ajudam a explicar a evolução da vida no passado. Pelas estruturas anatômicas que nós encontramos, nós comparamos toda uma sequência de modificações que os organismos tiveram, não só os animais, como as plantas. Os fósseis são uma prova sobre a evolução da vida. As observações anatômicas aparecem nessas espécies encontradas como fósseis”, lembrou o paleontólogo Jorge Luís.

“Os fósseis também ajudam a entender o meio ambiente, a questão do clima, os eventos catastróficos, porque eles são testemunhas desses eventos”, apontou, salientando que as mortandades em massa que ocorreram no passado representam eventos de grande magnitude.

“Sem dúvida nenhuma, baseados nesses fósseis animais e nos fósseis vegetais que nós encontramos, é que nós sabemos que todos os seres vivos têm preferências no planeta. Aí a gente consegue entender como era o clima de uma determinada região, por exemplo. Esses estudos nos ajudam a entender como era o solo, como era o clima, como era a vegetação de uma determinada região. São estudos que nós chamamos de paleoecológicos e paleoambientais”, detalhou o pesquisador.
Em Alagoas, de acordo com ele, os fósseis são um material descoberto com muita frequência e, caso ele não esteja atento a essas descobertas, tudo pode literalmente virar pó, pois durante as escavações, os fósseis são quebrados pelos agricultores, que os confundem com ossos de animais de suas fazendas.

Para ajudá-lo nessa tarefa de chegar com rapidez até os achados, o pesquisador conta com uma rede de colaboradores no semiárido, mas mesmo assim ele admite que o trabalho ainda precisa ser mais conhecido pelos moradores, principalmente pelos proprietários rurais.

“O nosso compromisso é dar uma resposta de imediato, tem que ir lá logo. Eu tento ir o mais rápido possível, dou uma satisfação a essas pessoas que encontram. Esse material é importantíssimo pra gente. Nós agora sabemos quais eram as espécies que existiam aqui em Alagoas, sabemos como era o Sertão no passado. Esse banco de dados conta a história de uma região e é muito importante para a ciência”, frisou o paleontólogo.

Tráfico de fósseis é uma ameaça

Assim como o tráfico de armas, drogas, animais silvestres e achados arqueológicos, o de fósseis também existe no Brasil e é uma ameaça aos materiais encontrados em Alagoas. Conforme o pesquisador Jorge Luís, existe uma legislação específica para proteger os fósseis, porém, em algumas situações eles são levados, de forma ilegal, para pesquisadores de instituições estrangeiras, situadas fora do Brasil, ou para curiosos, que praticam o que ele chama de “colecionismo”, e os mantêm em acervos particulares.

Essa situação era mais comum no passado, mas continua sendo uma ameaça. Porém, com seu trabalho pioneiro em Alagoas nos últimos 20 anos, Jorge Luís, que além de professor é diretor do Museu de História Natural da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), tem conseguido recolher da forma correta e preservar os fósseis nas dependências da instituição.

“No passado, acontecia de material de Alagoas sair de forma ilegal e ir para acervos em outros estados. Nós não tínhamos aqui um local para ele ficar. Hoje, quando ocorre de um pesquisador trabalhar num estado que não é o seu e onde já existem pesquisadores naquela área, é preciso fazer uma parceria. Você tem que respeitar quando o pesquisador já trabalha com isso e comunicá-lo sobre seus achados naquela região”, defendeu o paleontólogo.

Porém, da mesma forma que as fronteiras de Alagoas permitem a entrada e saída de armas, drogas e animais silvestres, permitem a saída de fósseis que deveriam permanecer no estado para servir como estudo e contar uma parte do passado e, ao mesmo tempo, ajudar a explicar as mudanças que ocorrem no presente.

Sem saber que se tratam de fósseis, muitas vezes os agricultores quebram os materiais durante suas escavações (Foto - Diego Barros)

Museu expõe fósseis ao público e realiza estudos

Os materiais paleontológicos encontrados em Alagoas são recolhidos para o Museu de História Natural da Ufal, sediado em Maceió, onde servem de estudos e onde podem ser visitados pelo público em geral. Após uma reforma que custou mais de R$ 630 mil, com recursos do Ministério da Educação, o prédio do antigo Centro de Ciências Biológicas (CCBI) da universidade, no bairro do Prado, é a nova sede do Museu.

Diretor da instituição, o paleontólogo Jorge Luís explica que lá o acervo de fósseis de mamíferos da megafauna reúne 16 espécies e cerca de 8 mil exemplares. Com uma equipe formada por 20 colaboradores, entre profissionais e estudantes de Biologia, Geologia Sedimentar e Paleontologia, os trabalhos são conduzidos com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Mesmo reconhecendo a importância do apoio concedido pelo CNPq para a realização de estudos e instalação de laboratórios, o pesquisador Jorge Luís ressalta que outros financiamentos são necessários. “Às vezes temos que buscar outras fontes de recursos. A iniciativa privada precisa participar, ela pode levar isso para a Lei Rouanet. Não temos projetos financiados pela Fapeal hoje, mas alguns anos atrás ela já financiou. Ela financia outros projetos muito importantes na universidade. Esses órgãos de fomento à pesquisa são muito importantes”, esclareceu.

Quem encontrar materiais semelhantes a fósseis, em qualquer lugar de Alagoas, deve ligar para o Museu de História Natural da Ufal, pelo número (82) 3214-1629, e pedir para falar com o próprio Jorge Luís ou alguém de sua equipe. Outro número à disposição é o: (82) 99981-8281.

Professor Jorge Luís Lopes é o diretor do Museu de História Natural da Ufal, que realiza pesquisas sobre os fósseis (Foto - Diego Barros)

Saiba como se formam os fósseis

De acordo com Jorge Luís, depois da morte dos mamíferos gigantes da chamada megafauna, no local onde hoje fica o semiárido alagoano, seus restos mortais foram transportados pela ação da água, da chuva forte ou de outros fatores, e depositados nas depressões, conhecidas popularmente como tanques. Em seguida, vieram a areia e os sedimentos, que cobriram esses restos mortais.

“Ao longo de milhares de anos, eles ficaram protegidos da ação do sol, da chuva e de outros animais. Os ossos começam, então, a ser substituído pelos minerais dissolvidos presentes no solo. Existem vários tipos de fossilização, mas nesse caso ocorreu isso. É por isso que o fóssil não é leve, não pesa apenas como um osso, ele está todo mineralizado, as cavidades do osso foram preenchidas por minerais e ele fica mais pesado que um osso normal. Vale lembrar que esse processo ocorre ao longo de centenas ou milhares de anos e o resultado disso é o que chamamos de fósseis”, explicou o paleontólogo.

Paleontólogo Jorge Luís Lopes explica como se formam os fósseis, a exemplo desse de uma preguiça gigante (Foto - Diego Barros)

 

Postada em 02/04/2016 07:00 | Atualizada em 11/12/2018 22:56
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